Porque tratar da devolução de crianças adotadas – assunto esquecido pela mídia muitas vezes

Titubeei para começar. “Procrastinadora” que sou, sentia que não daria conta de repassar e narrar as histórias da maneira correta. O começo precisava ser grandioso, pelo menos na minha mente pequena. Precisava, porque eu queria que as pessoas sentissem metade do que eu senti ao adentrar na Vara da Infância e da Juventude as tantas vezes que o fiz em 2019. Atrapalhada, errei a casa. Minha mãe diria que é a cabeça de vento e que eu preciso prestar mais atenção. Meu pai diria que é a música alta que atrapalhou. A segunda definitivamente estava correta. Acanhada, perguntei para a moça que me atendera se lá era a Vara da Infância. A chuva atrapalhava e acredito que a senhora se compadeceu da moça que andava para lá e para cá atrás do prédio público. Eu já havia imaginado algumas vezes aquela casa e, para mim, fazia muito sentido ser aquela. Ledo engano. 

A senhora, gentilmente, me apontou a casa da frente, do outro lado da rua. O aplicativo não colaborou naquele caso. Erro meu. Os guardas uniformizados não deixavam dúvida de que era lá, o detector de metais também não. A propósito, me pediram uma única vez para passar por ele e, por sinal e coincidentemente, na ocasião não estava tão bem vestida. Privilégios?

Irônico ou não, não era uma casa estranha para mim. Por pior que pareça, parecia aconchegante e tranquila, mesmo que as paredes sem cor e os bancos duros de madeira dessem um ar gélido, era agradável. A família “Peppa Pig” de pelúcia que ali estava dava um ar infantil. A mesinha pequena e colorida de plástico também. Era normal. Já ouvi do Walter Mattos, psicanalista e coordenador do GAASP – Grupo de Apoio a Adoção de São Paulo, que algumas mães e pais, após a adoção, tem até medo de passar pela rua de novo, afinal: “vai que” tiram a guarda novamente. Juridicamente, é difícil. Mas o fantasma assombra. Para muitos, é a encarnação de seus piores pesadelos. Para outros, apesar dos pesares, é o lugar deles. Utilizando o pronome possessivo “deles”, como donos. Proprietários. Algo que lhes pertence, e ninguém pode tirar. Tantas coisas são compartilhadas e instáveis. Como Stella, mãe por adoção, me disse certa vez: “Eles andam em bando, são eles, e por muitas vezes não são o só, o individual”, ao me contar do compartilhamento dos objetos nos abrigos. Lá, ninguém iria abandoná-los. Lá sempre estaria naquele mesmo lugar, não chegaria em uma manhã e diria que não estava “dando certo”, como tantos adultos o fazem. Lá era certeza. A adoção, o lar, os colegas e as “tias” são?

Pessoalmente, eu tinha muita curiosidade. Creio que pela imaginação fértil derivada da Infância e dos fantasmas do passado imaginava uma outra coisa. A personificação do passado, de coisas ruins. Pelo menos ruins até contrastar com tudo que estaria por vir. A concepção de bom e ruim muda de acordo com as circunstâncias.

Ouvi certa vez de Maisa chefe de psicologia do órgão, que as crianças buscam pelo seu passado, inclusive é normal. Por vezes ele é misterioso, desconhecido… uma “mancha” na história de vida. Desarquivar um processo e abrir as centenas de páginas diante de crianças, jovens e adultos não é novidade para ela. As pequenas salas marrons que tomam grande parte do andar da psicologia na Vara da Infância, que Stella prefere chamar de “baias de animais”, já viram muita coisa. Confesso que tenho um certo apego por essas salas, elas me emocionaram incontáveis vezes neste ano. Eu me vi naquelas crianças correndo e brincando nos corredores largos que separam os bancos das “decisões” que são tomadas naquelas salas. De alguma maneira, elas são um pouco do que eu fui, do que eu poderia ser, do que deixei de ser. Talvez, a minha forma de retomar o passado da minha adoção seja fazer esse livro. Talvez, um dia, eu queira ver o meu processo. Talvez. No momento, contento-me folheando outros processos, como o da Eliana, que li por engano e torci para que tudo desse certo. Decepcionei-me ao ver que a última folha datava de março de 2019, e de uma forma ou outra, nada havia mudado. Ou o do Bruno, que me causou revolta, dor, lágrimas, sorrisos e me fez torcer para que tudo terminasse bem, para que os contos de fadas e os heróis, que são criados para as crianças, chegassem e o resgatassem. Às vezes esses heróis não chegam, pelo menos não para essas crianças.

Resiliência é uma palavra que está na moda, talvez utilizada de uma maneira um tanto quanto efêmera, mas o “pequeno” Bruno sim, ensinou-me o que é resiliência, que apesar de tudo é possível ficar bem. O que é bem? Para ele, comer já é estar “bem”. Estar vivo – e sem cortes pelos braços, apesar dos pesares, é permanecer “bem”. Segundo Walter elas são resilientes por natureza, este (incluir e eliminar o “isso”) é o traço em comum que o abandono causa nestas crianças.

Nervosa, balbuciei que tinha ido ver a Ana Cláudia ao ser questionada pelo pessoal da recepção. Tentava manter a pose de jornalista, que sabia exatamente o que estava fazendo, quando eu não tinha nem ideia do que eu tinha ido fazer ali. Eu tinha um desejo, a vontade de fazer um livro sobre as adoções malsucedidas e isso era tudo. Ainda não sabia a proposta da faculdade para o TCC, mas, com ressalvas, sabia o que eu queria. Disseram-me para esperar, como que acalmando a ansiedade e as tantas ideias que eu tinha.

Após quase meia hora, uma moça franzina, com sorriso tímido e com cabelos escuros puxados para trás em um coque frouxo veio até mim, usando uma regata branca, shorts jeans e uma pequena necessaire na mão, perguntou:

— Você é a Beatriz?

— Sou – sorri de maneira tímida.

— E por que você não disse que chegou? – perguntou gentilmente, ainda que de maneira firme. Eu veria mais para frente que este é um dos traços das psicólogas daquele lugar. A gentileza está presente naqueles profissionais, contrastando com as histórias, muitas vezes tristes, que ali se encerram.

Aparentemente esqueceram da minha chegada, mas não importava. Na ocasião, a psicóloga me contou dois casos chocantes que me embargariam a voz e fariam eu sair de lá com um tema: uma menina que havia retornado ao abrigo com 17 anos e um menino que havia voltado 5 anos após a adoção efetivada, entretanto, não só ele voltou, mas a depressão, a mutilação, a falta de vontade de comer e de existir, literalmente. As incontáveis vezes que Bruno disse que queria “sumir” ainda ecoam. Como uma criança, com apenas 12 anos, diz que gostaria de sumir? Não na brincadeira, não fazendo drama ou manha. Diz, porque para ela é verdade, faz sentido, é a “única saída”.

Naquele mesmo dia eu conheceria um pouco mais da trajetória de Ingrid, “devolvida” aos 17 anos para o abrigo, tendo sido adotada nos primeiros anos de sua vida. Após uma década de convivência com a família, retornou ao abrigo na adolescência, porque a relação já não estava dando certo. A percepção veio 15 anos depois da adoção concretizada. Os “pais” alegaram que há muitos anos o relacionamento estava instável e a “desculpa” de que os traços de sangue poderiam ter influenciado no fracasso da filiação estavam nas entrelinhas do discurso.

A ideia de que o sangue e a genética são parte da criança e que, se algo der errado, “com certeza herdou dos pais biológicos” não é nova. A lógica de que “o sangue fala mais alto, para o bem e para o mal” é passada de geração para geração, mesmo que de maneira inocente e inconsciente. Nos casos de adoção, de acordo com a presidente do ANGAAD – Associação Nacional de Grupos de Apoio à Adoção, Sara Vargas, isso é ainda mais comum. Segundo a representante da instituição, a mídia colabora com esse “discurso”, mostrando em novelas, filmes e séries que em algum momento essas crianças vão retornar as famílias, porque é o certo. Nada pode ser generalizado, tudo depende de caso a caso. Entretanto, quando esse discurso é repetido mil vezes, ele se torna verdade, como diria Joseph Goebbels, que idealizou a propaganda em torno de Hitler. Tomando as devidas proporções, o que a mídia diz pode se tornar verdade, sendo considerada o quarto poder até hoje. A verdade disseminada sobre a adoção e sobre a “força do sangue” causa instabilidade nos pais, impõe um medo que afeta as relações e que pode moldar o sentido de ser pai e mãe.

— “Você não tem vontade de conhecer a sua mãe?”.

— “Nossa, mas você nem parece uma criança adotada”.

Esses são os comentários que, faça chuva ou faça sol, eu ouço quando digo que sou adotada. Não importa a classe social, o grau de instrução e muito menos a relação afetiva que a pessoa tenha comigo, são comentários que, pelo senso comum, estão intrínsecos à adoção. Se formos esmiuçar o que foi dito em cada frase, podemos perceber que: não foi dito “mãe biológica”, foi dito mãe, porque ter ou não uma família nova nunca será tão “certo” ou igual ter uma família de sangue. Podemos constatar que no imaginário da população, a relação de sangue sempre será mais forte do que qualquer coisa, então não importa a sua situação atual, tendo a possibilidade de estar com a sua família “de verdade”, você trocará qualquer outra modalidade familiar.

Na segunda frase, se pararmos um segundo para analisar, perceberemos a quantidade de preconceitos que ela carrega: o que é parecer uma criança adotada? Uma criança maltrapilha? Suja? Sem modos? Uma alusão as clássicas crianças de Jorge Amado, em os Capitães da Areia? Talvez seja uma das referências viáveis para retratar estas crianças, mas quando estamos falando de adoção, percebemos que a palavra mais utilizada é “depende”. Os estereótipos sobre adotados são errados, não só por serem socialmente incorretos, mas, principalmente, por retratar um imaginário pobre e arcaico do que seriam essas crianças. Nada é certeiro ou absolutamente afirmativo na adoção, justamente por tratar de seres humanos e quando falamos deles, nada é uma ciência exata, tudo é relativo… tudo depende.

A devolução de crianças adotadas, sem quaisquer aspas, é por vezes esquecida, mas o fato e os sentimentos relacionados a cada história estão intrínsecos e marcam.
As páginas a seguir relatarão a história de Bruno, devolvido pelos pais após 5 anos de adoção (2010-2015); de Ricardo, que permaneceu com a família dos 8 aos 13 anos (2012/2013–2018); Stella, mãe adotiva que quase devolveu a filha por desejo desta; Josivaldo, hoje homem feito, mas que na infância foi devolvido 2 vezes e, por último, histórias que se relacionam de uma forma ou outra com a adoção e podem esclarecer assuntos que, por vezes, não são ditos e podem tornar a adoção estigmatizada.

Salienta-se que os nomes e demais informações das crianças mencionadas foram alterados para resguardar suas identidades e pelo segredo de justiça atrelado a essas histórias – assim, o nome dos envolvidos diretos também foi modificado. Outros personagens pediram para ter sua identidade preservada e, em respeito ao pedido, por entender que em nada atrapalharia o relato da história, a solicitação foi acatada. 

Este é o primeiro capítulo do livro ‘Vidas Sucateadas – Um olhar sobre a devolução de crianças adotadas’, disponível na Amazon Brasil.

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